Dark Academia como gênero literário por Ketelen Lefkovich

Ainda que oficialmente não seja um gênero literário, já pode se caracterizar o dark academia como tal. Isso porque apesar de ser, também, uma estética visual de roupas, fotografia, paleta de cores e comportamentos ligados ao estudo da arte e literatura, as origens do termo como gênero literário podem ser traçadas mais a fundo.

Academic fiction, campus fiction e campus novel são alguns termos usados para se referir às obras que se passam em ambiente acadêmico na ficção anglo-americana que teve um grande boom nos anos 1950, mas que “inspirou séculos de ficções devotadas a vida universitária romanceadas nos academic novels do começo do século dezenove” (WOMACK, p.1). A chegada do academic novel na américa pode ser traçada até ninguém menos do que Nathaniel Hawthorne com seu Fanshawe publicado em 1828, considerado o primeiro trabalho de ficção a retratar a experiência acadêmica americana.

Johnson (1995) comenta sobre o academic fiction dizendo que é “um trabalho de ficção que incorpora uma instituição de ensino superior como uma parte essencial de seu cenário e inclui entre seus principais personagens estudantes da graduação ou pós-graduação.” Outro fator interessante comentado por Johnson é o retrato que é feito de alunos desmotivados com o estudo, que mal aparecem nas aulas, mais preocupados em frequentar festas e consumir álcool,  inclusive a autora menciona que o consumo de álcool, seja ele em excesso ou não, esta quase sempre presente nos livros de academic fiction. No quesito desmotivação é aí que temos a primeira quebra do dark academia, onde podemos vê-lo não como parte do academic fiction, mas como um subproduto dele. Para o dark academia a motivação além de presente é essencial para seus personagens, estes são apaixonados por seus campos de estudo (sejam eles quais forem) ao ponto de de serem extremamente ambiciosos e competitivos.

“A universidade por natureza é uma instituição paradoxal porque é ao mesmo tempo progressista e conservadora. Como um local de pesquisa e scholarship, é constantemente responsável por avanços tecnológicos e revisões de visões de mundo, e como uma escola é responsável pela disseminação do conhecimento e por conseguinte preservar e padronizar o conhecimento e ideologias atuais. Essa natureza dualista faz da universidade o cenário ideal para qualquer conflito entre o tradicional e o progresso.” (1995 p.38 apud JOHNSON). A partir dessa citação podemos situar que tanto o academic fiction quanto o dark academia estão inseridos num contexto onde o próprio cerne de sua produção serve como base para discussões sobre sexismo, classicismo, elitismo, racismo e tantos outros. É justamente como forma de expor a realidade do ambiente acadêmico, não importa o quão feia ela seja, que nasceram estas produções ficcionais. Anderson & Thelin (2016) comentam que “a conclusão inegável é de que os campus novels passam se esmagadoramente em universidades privadas de elite, ou grandes e públicas instituições de elite” ou seja por estar inserido nesse ambiente, é que é possível construir a crítica sobre ele.

Outro ponto associado à universidade como local discutido por Johnson é de que pelo menos uma cena se passa na biblioteca da universidade e apesar de às vezes ser descrita de formas não tão favoráveis a biblioteca é palco de inúmeras descobertas no academic fiction. 

No artigo Academic Satire: The Campus Novel in Context Kenneth Womack ainda discorre sobre como o campus novel trabalha como sátira da vida acadêmica “o campus novel desfruta de uma longa e distinta história nos anais de estudos literários. Uma revisão da emergência do academic fiction como uma forma literária, particularmente durante o século dezenove, considera suas archly satíricas manifestações durante a segunda metade do século vinte, a era em que a sátira acadêmica desfrutou de seu período mais frutífero, com forays em uma variedade de esferas criativas, incluindo ficção, poesia, drama e filme.”

Desta forma em busca de definir o gênero dark academia este artigo propõe cinco características principais para categorizá-lo. 

  1. Ambiente Acadêmico

É inegável que um livro dark academia precise ter um ambiente acadêmico, pois como já foi observado anteriormente, ele é o pilar do academic fiction, e o dark academia sendo um subproduto disso não poderia ser diferente. Podem ocorrer exceções, por exemplo internatos, mas o mais comum são as universidades.

  1. Área de Estudo

Uma das articulações dentro do dark academia seria então o estudo, já que ao contrário do que existe no academic fiction onde os alunos não demonstram interesse por seus estudos, o dark academia surge em contracorrente disto, onde os alunos são devotos e apaixonados por seus nichos acadêmicos.

  1. Moralidade

A presença de discussões morais, questões sobre o bem e o mal e a intersecção cinza que existe entre eles é algo muito presente no dark academia. As coisas não são preto e branco e os personagens não são 100% bons ou maus, mas sim pessoas complexas e que questionam o mundo ao seu redor.

  1. Atmosfera Gótica

O início do ano letivo (no hemisfério norte) acontece em setembro, quando se inicia o outono. Inúmeras histórias góticas tem esse mesmo cenário, intensamente descritivo, com o frio se aproximando, é uma aura permeada de neblina, casacos e suéters e copos de café. Inegavelmente os livros de academic fiction também se iniciam nesse período e os de dark academia também e há um foco especial nas descrições atmosféricas.

  1. Morte

O quinto e último item da lista é a morte. Em quase todos os livros dark academia você pode encontrá-la. Seja uma morte que impulsiona a narrativa como pontapé inicial para algo, seja a morte de um dos protagonistas, seja a promessa de que alguém vai morrer até o fim da narrativa, não importa. Em algum ponto do livro ocorrerá uma morte.

Desta forma o que pretende-se é colocar os livros dark academia dentro destas categorias e encontrar assim um chão comum para todos, uma forma de fazer o gênero ter força e suas próprias bases, para encontrar seu espaço nos estudos literários.

Atualmente o dark academia está muito popular, seja tanto como estética visual, quanto os livros que incluem premissas que envolvam histórias que se passam com personagens universitários. O que é importante notar é que apesar de o dark academia ser algo recente, The Secret History, também conhecido como o pai do dark academia, foi publicado em 1992 apenas 29 anos atrás, parte do conceito sob o qual ele está estruturado, já existe há muito mais tempo. E é precisamente por isso que é tão importante separar a parte visual da parte literária que compõe o gênero dark academia, para que possamos estudar e apreciar ainda mais tudo o que essa forma literária ainda tem para nos oferecer.

Ketelen Lefkovich, Primavera de 2021

Referências:

ANDERSON, K. Christian, THELIN R. John. Campus Life Revealed: Tracking down the Rich Resources of American Collegiate Fiction, The Journal of Higher Education, 80:1, 106-113, 2009.

JOHNSON, Lisa. The Life of the Mind: American Academia Reflected Through Contemporary Fiction. Fall 1995.

WOMACK, Kenneth. Academic Satire: The Campus Novel in Context. A Companion to the British and Irish Novel, edited by Brian W. Shaffer, Blackwell Publishing, 2005.

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