Frankly in Love – David Yoon

Como explicar Frankly in Love? Como comentar sobre o livro que é, na minha opinião, não apenas o melhor YA de 2019, mas também o melhor há dos últimos anos. Um livro profundo e sensível e repleto de camadas que discutem tópicos incomuns em narrativas Young Adult. Acho que vamos começar do começo.

Frank Li, sete letras, número da sorte nos EUA, é um adolescente de dezoito anos filho de imigrantes coreanos. Ele mora na Califórnia e está começando seu último ano do ensino médio. Os pais de Frank querem que ele namore uma descendente de coreanos, mas Frank acaba se apaixonando por uma garota branca. É assim que começam os problemas na vida amorosa de Frank e também é nesse momento que ele decide fingir que está namorando uma garota coreana para despistar os pais. Com base nessa pequena sinopse este livro parece ser nada menos do que mais um YA sobre um garoto apaixonado, ou até mesmo uma boa história sobre fake dating, ou então foi o que eu pensei. Porque quaisquer que fossem as minhas expectativas com relação a este livro, elas foram completamente demolidas pela realidade bombástica de que este livro é: perfeito, perfeito, perfeito.

David Yoon, cujo sobrenome talvez reconheça porque sim, ele é marido de Nicola Yoon, autora de O Sol Também é Uma Estrela e Tudo e Todas as Coisas é o autor estreante deste livro que já tem adaptação cinematográfica confirmada pela Alloy Entertainment e pela Paramount. Em primeiro lugar a escrita de David é ótima, permeada de leveza e fluidez o livro é extremamente devorável e apesar de tratar de temas sérios, a escrita do autor tem o balanceamento perfeito para que o livro não se torne pesado ou opressivo. A voz que o autor infunde em sua narrativa é extremamente original e cativante. Mas como se não bastasse ter uma escrita excelente o livro ainda conta com outras características excelentes. E não posso esquecer de mencionar que adorei a piadinha com a sonoridade e escrita da palavra frankly (francamente) e o nome Frank Li.

Os Encontros são um mundo próprio. Cada um é uma versão da Coreia perpetuamente presa em uma bolha de âmbar — o início dos anos 90 na Coreia que a Mãe-e-Pai e o resto dos amigos deles trouxeram para os Estudos unidos anos atrás depois que a bolha se rompeu. Enquanto isso, o resto dos coreanos na Coreia seguiram com suas vidas, se tornaram mais afluentes, se tornaram mais esclarecidos. Enquanto isso, do outro lado da porta da frente da casa dos Kim’s crianças americanas estão dançando músicas de K-Pop em suas enormes telas de tv.

Frank Li é um garoto sincero, ele não tem medo de falar a verdade sobre sua situação familiar. Veja bem, Frank é filho de imigrantes coreanos, mas ele nasceu nos Estados Unidos. A primeira dicotomia que o livro nos apresenta e que Frank discorre muito sobre é a questão do que ele é; ele é americano? Ele é coreano? E o termo coreano-americano com aquele maldito hífen que faz com que todos presumam que ele seja um expert em cultura coreana quando o mesmo sequer consegue falar algumas palavras em coreano. Qual é o limite que traça a nacionalidade de alguém afinal? E para demonstrar essa sensação de não pertencimento há momentos por exemplo em que americanos tratam Frank de maneira diferente e ele não se sente americano ou momentos em que em algum dos Encontros familiares, onde os pais de Frank e seus amigos se reúnem para jantar, alguém fale algo muito difícil em coreano e Frank não consiga entender a frase aparece escrita em alfabeto Hangul, ou seja Frank também não se sente coreano. Eu achei isso simplesmente muito bem desenvolvido e construído.

Seguindo nessa mesma linha, os pais de Frank como já mencionei querem que ele namore uma garota coreana e ai que entramos num dos maiores temas abordados pelo livro, e do qual o autor (que aliás é coreano-americano o que quer que isso signifique) não tem nenhum escrúpulo na hora de escrever francamente sobre: os pais de Frank são racistas. Os pais de Frank tem preconceito até mesmo com outros asiáticos, o que dirá então com os brancos, ou até mesmo com os negros (é importante mencionar aqui que Q, o melhor amigo de Frank, é negro).

Para entender como isso pode ser um problema, é útil saber que basicamente todo país na Ásia tem historicamente odiado todos os outros países da Ásia. Coreanos odeiam Chines, e os Chineses odeiam Coreanos e tem sido assim desde sempre. E também Chineses odeiam Japoneses odeiam Coreanos odeiam Tailandeses odeiam Vietnamitas e assim por diante.

O que é mais incrível sobre essa franqueza explicita que é também uma crítica por parte do autor é que a literatura atual não é recheada de nomes originários da coreia do sul, e muito menos a literatura YA, portanto não apenas é algo muito inédito termos um autor que é coreano, como também um personagem coreano falando sobre o racismo presente em sua vida diária. Ainda nesse mesmo âmbito o autor insere também o preconceito que ocorre dentro da própria cultura coreana, com relação as classes sociais e ao local de nascimento das pessoas. Esse trabalho feito pelo autor e maneira como foi executado com perfeição é algo que me deixou de boca aberta. Só isso já seria suficiente para o livro ser um cinco estrelas, mais ainda houveram mais coisas que gostei.

Onde começa e termina a coreanisse? E quanto as crianças nascidas dentro da ocupação Chinesa ou Japonesa? E quanto essas mulheres que se adaptaram as suas realidades? Seus cartões de coreanas deveriam ser cancelados? Vocês não acham que deveriam viver na coreia para serem completamente coreanos? Vocês não acham que é preciso ser fluente na língua coreana para ser completamente coreano? Porque vocês vieram para este país se são tão coreanos? E quanto a mim e ao Frank?

Em se tratando de temas mais comuns a literatura YA, como o fato de Frank estar apaixonado e ser adolescente, ainda assim o autor conseguiu trazer uma originalidade que eu não esperava. É ótimo ver que apesar de um livro parecer ser algo, o autor ainda pode ser capaz de nos surpreender e trazer camadas de profundidade para um assunto que já é tão utilizado dentro de um gênero literário.

A construção dos personagens e seus relacionamentos também é feita com dedicação. Os personagens todos possuem camas e são não-lineares, então eles parecem todos transcender para além das páginas, especialmente nosso protagonista Frank. Além disso os personagens tomam atitudes inesperadas, mudam de opinião sobre as coisas, e isso faz com que a narrativa cresça de uma maneira muito orgânica, imitando a vida em um grau máximo, fazendo parecer que não estamos lendo algo ficcional. Desde o relacionamento com seus pais, a relação a longa distância com sua irmã Hanna, ou a amizade com Q. ou até mesmo a relação de Frank com o amor, eu amei tudo. Cada uma dessas esferas presentes na vida do protagonista tem profundidade e também possuem sutileza, há diversos momentos na narrativa quando há interações simples acontecendo e isso traz uma carga de cotidiano, que faz com que os personagens pareçam ainda mais humanos.

Assim como a linda capa do livro, esta história possui camadas e camadas, e desvendá-las e também aprender com elas foi um grande prazer. Não sou capaz de descrever o impacto que este livro causou em mim. Inclusive chorei copiosamente durante todo o final da leitura, como acredito nunca ter acontecido comigo antes. Frankly in Love é um dos melhores livros que li na minha vida.

Frankly in Love está previsto para ser publicado com o título de Frank e o Amor pela Editora Seguinte em 30/10/2019. Você pode conferir o booktrailer do livro aqui:

 

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