Nevernight – Jay Kristoff

Nevernight não é um livro para qualquer um. Em suas 600 páginas o autor Jay Kristoff escreve sem pudor, com acidez e muita violência, a primeira parte da “crônica” de Nevernight, a história de Mia Corvere em meio a um mundo de sangue, vingança e assassinato.

Quanto mais brilhante a luz, mais profunda a sombra.

Confesso que a minha primeira tentativa de leitura do livro foi frustrada. A escrita era confusa e dificultou o entendimento, combinada as descrições gráficas do autor me deixaram um tanto perdida na leitura e também senti que estava me forçando a continuar. Portanto desisti, e abandonei a leitura por vários meses. Enfim decidi que para amar ou odiar eu iria fazer uma nova tentativa de leitura e me esforçaria para finalizar o livro e ter meu veredito próprio sobre essa história. Foi nessa segunda tentativa que me apaixonei por essa história e ainda ganhei um novo autor favorito.

Os livros que amamos nos amam de volta. E assim como nós marcamos a nossa posição nas páginas, as páginas deixam marcas em nós. Eu enxergo isso em você (…) Você é uma filha das palavras. Uma garota com uma história para contar.

Mia Corvere é filha de um traidor. Após a rebelião preparada por seu pai falhar e ele ser executado, a mãe de Mia é levada para a prisão junto com o filho bebê e Mia escapa por um triz de todos esses infortúnios que se abateram sobre uma das mais nobres famílias da República de Itreya. A garota só consegue escapar com vida graças ao Sr. Simpático, o não-gato feito de sombras que se une a menina, alimentando-se do medo dela e fazendo-a descobrir que é uma sombria, capaz de manipular e interagir com as sombras. Seis anos depois Mia, agora com dezesseis anos, não se esqueceu do que aconteceu e busca vingança contra aqueles que destruíram tudo o que ela tinha. A menina deseja se tornar uma serva da Igreja Vermelha, os seguidores da Nossa Senhora do Bendito Assassinato e os mais mortais assassinos da República. A narrativa de Nevernight irá nos guiar através dos aprendizados árduos de Mia em busca de se tornar uma arma mortal capaz de assassinar qualquer um que cruze seu caminho.

Mas conforme ela cortava e se esquivava entre eles com lâminas assoviando, os mais ligeiros perceberam que ela não era demônio. Nem monstro. Mas uma garota. Só uma garota. E isso os deixou mais assustados do que qualquer demônio e monstro que podiam nomear.

Como mencionei antes a escrita de Jay é difícil. Ela é truncada e densa, quase como se desafiasse você a ousar ler o material em suas mãos. Mas é uma escrita que se provou deliciosa e viciante assim que se acostuma a ela. É uma escrita diferente, e que contém duas características marcantes importantes: a primeira é que há um narrador que constantemente conversa com o leitor, chamando-nos de “velho amigo” entre outros, de modo que essa quebra do molde narrativo padrão é muito bem vinda e curiosa, já a segunda característica é a presença de muitas notas de rodapé, que servem para nos contar sobre as diversas peculiaridades da história da República, que é uma história tão densa e complexa que me pergunto como Jay Kristoff deu conta de um worldbuilding tão complexo. A inspiração para esse mundo veio de Roma e Veneza, e é muito fascinante ver como Jay moldou a política e aparêncian desses dois lugares para criar o seu próprio. E quando digo que são muitas notas de rodapé, são muitas mesmo, quase cem, e várias delas tão extensas que tomam páginas inteiras. Isso pode parecer muito cansativo, mas a verdade é que quando se está mergulhado nessa narrativa a dinâmica da leitura nos faz desejar toda e qualquer informação que as notas nos proporcionam. O resultado da combinação de todos esses fatores é uma leitura diferente de tudo que já experimentei, inovadora e única.

A profundidade dos personagens é algo digno de nota. Apesar de o ponto de vista ser em terceira pessoa o narrador nunca deixa de focar em Mia, ou seja não temos acesso a ver nada através dos olhos de outros personagens. Entretanto isso não impede que as personagens ao redor da protagonista sejam incrivelmente reais e complexas. E em um lugar feito para treinar assassinos será um desafio para Mia encontrar alguém em quem confiar de verdade.

O autor não tem nenhum escrúpulo na hora de descrever as coisas, portanto é válido lembrar que esse não é um livro YA. É um livro que não censura na hora dos palavrões, contém descrições gráficas não apenas de sexo, mas de violência explícita e totalmente gore. Nevernight é visceral.

Mas se você está disposto a embarcar nessa jornada épica e mergulhar de cabeça na escuridão e ver o que há por lá, então eu recomendo muito que leia este livro.

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