O Lobo da Estepe – Hermann Hesse

O Lobo da Estepe é um livro difícil de ler. É um livro que causa estranhamento à primeira, a segunda e a terceira vistas. É necessário processar por um longo tempo tudo que foi apresentado, afim de que possa ser entendido, analisado e esmiuçado, visto que não é uma obra fácil de digerir e mastigável. É uma obra que faz pensar e pensar sobre muita coisa.

Temos o protagonista, Harry Haller, que além do nome aliterativo durante muitos momentos ecoa a biografia do próprio autor.  Hermann Karl Hesse nasceu em 1877 na Alemanha, em uma família muito religiosa de pais missionários protestantes. Apesar de estudar no seminário de Maulbron Hermann não seguiu a carreira de pastor como era a vontade de seus pais. Emigrou para a Suíça onde acabaria se naturalizando mais tarde. Quando viajou para a Índia em 1911 entrou em contato com a espiritualidade e entrou em contato com a psicologia analítica por meio de um discípulo de Carl Gustav Jung. Essas duas influências foram as mais importantes e decisivas para sua obra.

O Lobo da Estepe conta a história de Harry Haller por meio de suas memórias escritas por ele mesmo e encontradas pelo sobrinho da senhora em cuja casa ele morara por um tempo. O livro se inicia com um prefácio escrito por este sobrinho onde ele narra suas impressões do personagem e ao final ele afirma que não quer defender ou condenar as anotações que foram feitas por Haller, mas “que o leitor o faça segundo sua própria consciência!”.

Harry Haller é um homem de meia idade que admira Mozart, Goethe, Handel, Novalis, e sua admiração por eles reflete sua admiração também pelo que é puro, sagrado, sublime e eterno. Porém assim como qualquer pessoa Harry também possui um lado fraco, limitado, mesquinho e sujo, ou seja seu lado de lobo. Pois o personagem acredita fielmente que dentro de si coabitam o homem e o lobo, esse dualismo que representa o sagrado e o cotidiano, já que o cotidiano é insignificante e burguês e se fosse então o profano pelo menos haveria algo de grandioso em si.

Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes – aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem ar nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível.

Numa interrupção da narrativa Hesse se dispõe a explicar no Tratado do Lobo da Estepe como o lobo é a segunda alma aprisionada dentro de Harry, essa alma que quer sair e que torna a personalidade de Harry impossível de conciliar. Além disso Harry não representa portanto o homem comum, representa o homem desajustado que não se encaixa na época em que vive, e esse desconforto acaba por gerar fissuras em seu EU, este eu que ele já considera fragmentado por imagina-lo como duplo, mas que mais tardiamente irá perceber não apenas que o eu é mais complexo do ele imaginava, mas que existem outras centenas, milhares, inúmeros eus que habitam dentro de si. Essa impossibilidade de coesão insere Harry em um grupo muito específico: o dos suicidas.

A tentação permeia a vida, o impulso está sempre ali. E ao se confrontar com o impulso diariamente Harry começa a perceber ainda mais as contradições e os contrastes da vida, o alto e o baixo, o grandioso e o insignificante, o grande e o pequeno, mas ao mesmo tempo que absorve essa ideia de contrário, toma também consciência de que eles não existem na verdade, que eles são relativos e só podem existir de acordo com um referencial, e que esse referencial pode ser sempre mutável.

Portanto este Lobo da Estepe, homem que vive à margem da sociedade e repudia, aliás, todo o convívio social e todos hábitos e costumes que a sociedade realiza, vive em constante asco e repúdio à sociedade que o cerca, e ainda mais especialmente a burguesia. A burguesia que é limitada e mesquinha e insuficiente para ele que está tão acima dela.

Ao mesmo tempo os outros personagens, Hermínia, Maria e Pablo acabam por ser desdobramentos da personagem de Harry. Hermínia como o próprio nome já cria seria o componente feminino de Harry; já Maria é o corpo que se entrega a ele, já que Hermínia se recusa a ficar com ele pois quer que ele a mate; e Pablo é sua versão masculina, aquele que ele gostaria de ser.

O personagem tem várias opiniões fortes, é antibelicista, ecológico e condena a sociedade capitalista. Mas ao mesmo tempo que constrói sua crítica a sociedade burguesa por exemplo o personagem insiste em dividir a sociedade de forma elitista onde há os homens “diferentes” que são intelectualmente bem dotados e os homens “comuns” a massa ignorante. E ainda que simultaneamente criticando a burguesia Harry permaneça incrivelmente devotado ao individual e também exaltando a esta individualidade. Essas inúmeras aparentes “incongruências” e “contrastes” não representa muito claramente os ideais de tolerância e intolerância em diversos aspectos, mas evocam novamente os princípios de que o eu nunca é uno, de que é impossível haver uma concordância de opinião dentro de um único ser, então como haveria de isso ocorrem em larga escala em uma sociedade?

Venho manifestando já por vezes minha opinião de que cada povo e até cada indivíduo, em vez de sonhar com falsas “responsabilidades” políticas, devia refletir a  fundo sobre a parte de culpa que lhe cabe da guerra e de outras misérias humanas, quer por sua atuação, por sua omissão ou por seus maus costumes; este seria provavelmente o único meio de se evitar a próxima guerra.

E ainda temos a figura do “Teatro Mágico” local que aparece desde o início da narrativa como algo misterioso, onde a placa diz “só para loucos” e “só para os raros” algo que causa fascínio no personagem e quando por fim ele entra neste local no fim da narrativa, um local onde os limites da realidade se confundem, inclusive ao ponto de que há interpretações da obra que sugerem isso como a alusão as drogas, mas deixando isso de lado a construção deste local seria a representação física e material de todos os conflitos internos pelos quais Harry (assim como todos os homens) passam. É um local que mexe com a estrutura psíquica do personagem, mas também do leitor, um local em que não há o certo e o errado, o bom e o ruim, mas uma sucessão de impulsos, hábitos, ações e atuações, mas não seria assim então dentro de cada um de nós? Afinal  próprio aviso diz “só para loucos” e de fato quanto da loucura humana é na verdade sanidade? Pois como um personagem diz em determinado momento da narrativa, que a consciência da existência da divisão do eu em várias partes é chamada de esquizofrenia, mas que apenas até certo ponto a ciência está correta. Não seria então o “Teatro Mágico” a representação última da bagunça que é a mente humana? Gosto de acreditar que sim.

2 comentários sobre “O Lobo da Estepe – Hermann Hesse

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.