A Biblioteca Invisível – Genevieve Cogman

Uma biblioteca que transcende os limites do espaço tempo. Universos paralelos. Magia e livros. O que poderia dar errado?

Tudo.

A Biblioteca Invisível é o perfeito exemplo de uma ideia incrível que foi executada da maneira errada. A começar pela escrita. Para um livro que se propõe a falar de livros, do amor por eles, que celebra tanto a literatura quanto a linguagem, do enaltecimento das bibliotecas ao ponto de ter uma ideia de que “a” Biblioteca seria uma organização secreta que busca e armazena livros de diferentes realidades paralelas, a escrita deste livro deveria ser sublime, imersiva, algo que fizesse esse mundo sair das páginas. E não foi o que aconteceu. A escrita é dura, por falta de um adjetivo melhor o que me vem à mente para descrevê-la é a palavra quadrada. Não há desenvoltura na escrita, ela não é trabalhada. Além de excessivamente cheia de diálogos, a escrita utiliza-se deles para descrever as coisas, por isso digo que ela é pouco descritiva no sentido de que não é fácil de imaginar as coisas narradas, pois elas estão permeadas nos diálogos, tornando-as planas e “imóveis”.

Como Bibliotecária, Irene tinha uma grande vantagem que ninguém mais tinha, nem os necromantes, nem os feéricos, nem os dragões, nem os humanos comuns, em ninguém. Chamava-se Linguagem. Só os Bibliotecários conseguiam lê-la. Só os Bibliotecários conseguiam usá-la. Podia afetar certos aspectos da realidade e era extremamente útil, ainda que o vocabulário exigisse constante revisão.

O fato de o livro ter diálogos em excesso o torna um poço de informações que não fazem sentido. Além de os momentos em que os personagens estão conversando serem muito frequentes (em meio há alguns momentos de ação sem nexo). Quase todas as explicações do livro não fazem muito sentido, não é possível entender direito os conceitos de magia, caos, entre outras coisas. As explicações são emboladas e confusas e os termos como “alternativos” ao invés de simplesmente “universos paralelos” acabam por confundir o leitor. Isso sem contar que em inúmeros momentos algo é explicado/mencionado apenas para algumas páginas adiante a explicação ocorrer de novo de uma maneira levemente diferente. Isso só acabou por resultar em uma superabundância de informações que não tinham serventia ao leitor.

Os universos paralelos funcionam da seguinte forma, eles são nada menos do que espécies de universos ficcionais, alguns possuem magia ou feéricos ou lobisomens, ou dragões, ou vampiros, ou quem sabe todas essas coisas juntas. É o caso do universo para o qual Irene vai em sua missão, o lugar é Londres nos anos 1800 e tantos ou seja era vitoriana, que possui tecnologia, sendo então steampunk além de ter todas as criaturas citadas acima e magia. Novamente o livro peca pelo excesso. Por mais que durante a leitura é inevitável que o leitor esteja preparado para aceitar as implicações e leis que regem o mundo descrito, como a magia funciona em determinado livro, como a morte funciona entre tantas outras coisas. Em A Biblioteca Invisível as coisas simplesmente param de ser críveis pois é como se fosse uma grande salada de frutas. A autora simplesmente jogou tudo lá, com poucas ou caóticas explicações e apenas espera que o livro funcione. Supostamente o livro deveria ser uma mistura de sci-fi, com fantasia, com steampunk, com história de detetive mas pelo fato de ele tentar ser tantas coisas ao mesmo tempo ele acaba não sendo nenhuma.

Há vários plot holes e momentos em que as coisas parecem acontecer de determinada maneira apenas por serem convenientemente resolvidas por algum artificio já pronto. As cenas de ação chegam a ser ridículas como em momentos em que jacarés robóticos atacam os protagonistas ou em momentos de luta entre Zepelins (os mais famosos meios de transporte neste universo paralelo).

Como se não bastasse todos estes problemas ainda temos o fato de os personagens não serem lá essas coisas. Irene, a protagonista, é distante e fria. Suas decisões durante a história poucas vezes fazem sentido e há pouca informação e detalhes sobre sua vida e passado. Ela é uma casca. Além de ter que constantemente reafirmar que é dedicada à Biblioteca, ou que não deve se envolver demais ou que não deve sentir demais tornando-a por vezes mais parecida com um robô do que com uma pessoa real. Não sei se nos livros futuros a personagem será mais desenvolvida e terá um crescimento, mas não sinto a menor vontade de descobrir.

Kai é um dos outros protagonistas, mas por conta da narrativa em terceira pessoa que foca apenas em Irene (se a autora tivesse feito múltiplos pontos de vista talvez isso melhorasse o livro um pouco) ele é deixado de lado muitas vezes. Achei Kai muito caricato e houve uma cena entre ele e Irene na metade do livro em uma tentativa forçada de romance que foi simplesmente bizarra. E o terceiro personagem principal é Vale, claramente inspirado em Sherlock Holmes, em uma tentativa talvez de homenagem por parte da autora, mas ainda assim apenas um arquétipo. O maior erro de todos os personagens é sua falta de profundidade.

Dizer que me decepcionei com o livro é pouco, pelo tanto que ele prometia deveria ter sido uma leitura fantástica. A execução foi tão ruim que me pergunto como a história irá se manter por mais quatro livros que ainda estão por vir. Se pelo menos tivesse havido um fôlego inicial do primeiro livro, despertando maior curiosidade e interesse, talvez eu me arrisca-se a ler o segundo volume para dar mais uma chance, mas temo que não será bem assim.

2 comentários sobre “A Biblioteca Invisível – Genevieve Cogman

  1. Clara Luar

    Primeiramente adorei seu texto, muito bem escrito e sincero. Segundo, eu li sua resenha esperando elogios, mas vejo que infelizmente o livro nao soube usar direito uma temática tao incrível quanto “livros”. Eu mesma estou escrevendo um livro sobre e certamente irei me preocupar com as suas pontuações. Alem de esclarecedor, sua resenha foi um estudo para mim. Parabéns pela dedicação.
    https://bloggentefazendolivro.wordpress.com

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