Sujeito Oculto – Cristiane Costa

No livro de Cristiane Costa, o ato de criação literária por si só é desconstruído, não importa a palavra, plágio, remix, apropriação, ou ainda a mais intrínseca ao romance, roubo.  O livro é construído a partir de um corta e cola de palavras e frases roubadas de outros livros, num processo de montagem à la frankenstein que conta com um inusitado projeto gráfico.

Se um personagem não passa de um jogo de palavras, sem carne ou osso, será que também não estamos nos enganando quando nos apalpamos e dizemos ‘Penso, logo escrevo’?

O livro, além de criticar, e de forma excelente devo dizer, o quanto as produções literárias são de fato originais e autênticas , e nos relembrar da máxima, nada se cria tudo se copia, incita o leitor a tentar desvendar alguns mistérios, quem seria o autor do livro? Apenas mais um personagem que não sabe que na verdade faz parte de algo maior do que ele? E qual seria o gênero, ficção, biografia ou crítica literária?

O livro é dividido em três partes, a primeira onde após a misteriosa morte de sua esposa temos os depoimentos de Carlos, seu marido. É quando ele começa a tentar desvendar o mistério que era sua mulher e todas as anotações e frases sublinhadas que ela já fez em um livro poderão servir de evidências para encontrar uma resposta, afinal algo sublinhado diz muito sobre a pessoa que o sublinhou, não?

Para ela, a leitura era uma espécie de escrita feita tanto com os olhos quanto com as mãos. Impossível encontrar qualquer livro virgem em sua biblioteca. (…) São fragmentos que exigem do leitor um esforço de investigação para adquirir algum sentido. Cada prateleira parece ter a própria alma, com livros agrupados por afinidades que posso intuir, mesmo na ausência do proprietário.

A segunda parte do livro foi roubada do leitor. Aqui o projeto gráfico incrível toma conta de várias páginas (eu amei!).

Já a terceira parte (minha favorita) toma um rumo inesperado. Pois é nela que vamos ter uma espécie de artigo/ensaio acadêmico sobre um livro chamado Sujeito Oculto e sobre sua autora Catarina, que havia sido apresentada na primeira parte como ninguém menos que a filha de Carlos. É aqui que o livro tem seu ápice, pois ao tentar explicar as cópias e plágios feitos por Catarina o narrador nos guia por diversas análises que fez do romance, incluindo diversos momentos em que o compara a outros nomes da literatura, como quando diz que a esposa de Carlos talvez pertencesse a mesma sala onde se encontram Capitu, Luisa e Madame Bovary, e assim explicando que muito mais do que imaginamos o tal “roubo literário” já acontece a muito tempo.

Caminhando sobre os livros da mulher que amei em silêncio durante mais de uma década, eu me pergunto como pode se estabelecer uma relação de propriedade entre algo tão imaterial quanto palavras e um nome.

Fiquei muito intrigada com a leitura e amei as críticas ácidas da autora, achei ótimo que na biografia da orelha menciona-se que depois de anos referenciando detalhadamente trabalhos acadêmicos a autora teve um surto de cleptomania e escreveu Sujeito Oculto sem referenciar e ainda por cima “roubando”. Genial.

Outra coisa que gostei muito e que achei extremamente relatable foi a importância das partes sublinhadas encontradas nos livros. Eu faço isso muito e ver como não apenas Carlos tentou desvendar sua esposa através delas, mas na terceira parte o narrador tenta desvendar a própria Catarina através das suas partes sublinhadas foi muito legal e me fez refletir bastante sobre o quanto o que sublinhamos revela sobre nós. De uma maneira incrível o livro explica que é desta maneira que nos tornamos sujeitos ocultos nas histórias que lemos.

Não sentia culpa por escrever nos próprios livros ou nos dos outros, ignorava solenemente o tabu que transforma a rasura num crime contra uma obra de arte fechada. (…) Não tinha puder de se expor, de mostrar suas reações mais impulsivas de forma nua e crua, de permitir que o próximo leitor penetrasse em seus pensamentos mais íntimos. Ou de perverter os propósitos do autor cometendo verdadeiras heresias em relação ao pensamento original. Anotadores compulsivos como Catarina Guerra, em geral são também leitores compulsivos. Mas nem todos os apaixonados se permitem este tipo de violação do objeto amado. Anotações nas páginas de um livro são a marca de um leitor especial, um leitor que escreve. Para um bibliófilo, como eu, trata-se de um defeito de caráter tão grave quanto uma perversão. Mas a raça dos anotadores não é tão conservadora; eles se divertem subvertendo a relação natural entre autor e leitor – eu escrevo, você lê -, que está longe de ser uma regra imutável para eles.

Um livro original que nos faz (re)pensar o quanto estimamos uma obra por ela ser mais “original” ou “autêntica” de outras e como a sociedade e a crítica literária está acostumada a criticar o novo, e endeusar o cânone, mesmo que os dois sejam muitas vezes mais semelhantes do que se julga.

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